Amigos de Adriana Villela

19/10/2010

A importância de ver as estrelas

Filed under: Uncategorized — by amigosdeadrianavillela @ 2:09
AGUALUSA, José Eduardo, “Manual Prático de Levitação: (contos)”. Rio de Janeiro: Gryphus, 2005

(…)

“Fortunato partiu para  Londres decidido a mostrar ao mundo a competência, o rigor e honestidade dos quadros angolanos. Logo na primeira noite recusou o convite de um grupo de colegas portugueses, que insistiam em o levar a um espectáculo de travestis, (“com gajos tão femininos que ao pé  deles as mulheres parecem imitações”) e ficou no quarto a estudar os dossiers. Deitou-se cedo, inteiramente nu, e adormeceu. A meio da noite levantou-se para urinar. Desde criança que Fortunato se levanta de noite e vai confusamente, sem interromper o sono, fazer o seu xixi. Naquela noite ele fez xixi sem problemas, mas ao regressar confundiu a porta com a da casa de banho, saiu para o corredor, sempre sonambulando, tropeçou num largo sofá, meio afundado na penumbra, e estendeu-se nele. Acordou de madrugada, trêmulo de frio, sem saber onde estava. Quando finalmente compreendeu o que lhe tinha acontecido levantou-se num salto, lançou-se em direcção à porta do quarto… E encontrou-a fechada!

– Pensei em suicidar-me, mas não tinha como. Ali estava eu, às seis da manhã, um preto nu no corredor de um dos melhores hotéis de Londres.

Afastada a hipótese de suicídio, Fortunato lembrou-se da avó. Todos os homens que choraram durante a infância, no regaço da avó, lembram-se dela na situações de maior desespero.

A avó de Fortunato nasceu Calomboloca e viu pela primeira vez a luz elétrica, já adulta, quando o marido a levou para Luanda. Ao contrário do que seria de esperar não ficou encantada. Na opinião da velha senhora o esplendor elétrico das grandes cidades, ao ocultar o brilho das estrelas, prejudicou a humanidade. Ela acha que, tendo deixado de ver as estrelas – tendo deixado de se confrontar, todas as noites, com o ilimitado, o infinito, a fantástica imensidão do universo -, os homens perderam a humildade, e com a humildade perderam a razão. O desvario do mundo está, na opinião dela, diretamente ligado ao êxodo rural e à multiplicação vertiginosa das grandes cidades.

Fortunato, nu, encostado à porta do quarto, teve algum tempo para meditar na filosofia da avó. Achou que aquilo fazia sentido:

– Compreendi de repente a tremenda desimportância da minha nudez.

Entrou no elevador, desceu até à recepção, e pediu que lhe abrissem a porta do quarto, pois tinha-a fechado inadvertidamente. O recepcionista, um irlandês muito ruivo, muito irlandês, olhou para ele e o que viu foi um homem íntegro. Estava nu? O recepcionista não saberia dizer. Era uma diginidade aquele homem. Procurou a chave e foi abrir-lhe a porta.”[1]

 


 

[1] AGUALUSA, José Eduardo, “Manual Prático de Levitação: (contos)”. Rio de Janeiro: Gryphus, 2005 – pp.131-133

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